Exportador agrícola, Brasil pode superar os Estados Unidos em 2026, enquanto ainda tem espaço para ampliar o valor de suas vendas externas
O Brasil está próximo de assumir, pela primeira vez, a liderança mundial como exportador agrícola. Em 2025, os Estados Unidos venderam US$ 171 bilhões em produtos agrícolas ao exterior, apenas US$ 2 bilhões acima das exportações brasileiras.
Para 2026, o governo norte-americano projeta US$ 177,5 bilhões em exportações agrícolas. Mantido o ritmo atual, o Brasil poderá alcançar US$ 180 bilhões e ultrapassar os Estados Unidos.
A mudança resulta de um processo construído ao longo de décadas. Desde os anos 1970, investimentos em pesquisa, tecnologia e produtividade transformaram áreas do Cerrado consideradas pouco adequadas à agricultura em algumas das regiões mais produtivas do mundo.
A Embrapa teve papel decisivo nesse processo. O desenvolvimento de variedades adaptadas ao clima tropical, a correção dos solos e novas técnicas de manejo permitiram ampliar a produção sem depender exclusivamente da abertura de novas áreas.
Outro diferencial brasileiro é a possibilidade de combinar diferentes culturas e atividades na mesma propriedade. Sistemas que integram soja, milho, algodão e pecuária podem permitir até três safras anuais.

China amplia espaço para produtos brasileiros
A disputa comercial entre Estados Unidos e China também acelerou a mudança no comércio agrícola mundial.
A primeira grande virada ocorreu em 2018, durante o primeiro mandato de Donald Trump. As tarifas impostas por Washington levaram Pequim a reduzir a dependência de fornecedores norte-americanos e aumentar as compras de produtos brasileiros.
Depois, a peste suína africana reduziu o rebanho chinês, enquanto a guerra entre Rússia e Ucrânia provocou novas oscilações nos mercados de grãos e fertilizantes.
Nesse cenário, o Brasil ampliou sua presença internacional e consolidou a liderança nas exportações de soja, café, açúcar e carne bovina. O país também avançou sobre mercados tradicionalmente fortes para os Estados Unidos, como milho e algodão.
A China ocupa posição central nessa transformação. Com cerca de um quinto da população mundial e menos de 10% das terras agricultáveis, o país depende das importações para atender parte significativa de sua demanda.
Cerca de 80% da soja consumida pelos chineses é importada. Desse volume, 70% têm origem no Brasil. Na carne bovina, metade das importações chinesas também vem do mercado brasileiro.
Somente no primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras para a China chegaram a US$ 58 bilhões, quase 20% acima do registrado no mesmo período do ano anterior.
Produtor americano enfrenta custos maiores
Enquanto o Brasil amplia sua presença, agricultores norte-americanos enfrentam dificuldades provocadas pela redução das vendas para a China e pelo aumento dos custos de produção.
Segundo a American Farm Bureau Federation, as principais culturas agrícolas dos Estados Unidos devem acumular perdas de US$ 32 bilhões em 2026. No caso da soja, as exportações para a China caíram 40%.
A situação se agravou com a escalada do conflito envolvendo o Irã. O temor de interrupções no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo comercializado no mundo, provocou forte alta do diesel nos Estados Unidos.
O combustível é essencial para tratores, colheitadeiras e transporte das safras. Assim, os produtores passaram a enfrentar simultaneamente receitas menores com as exportações e custos mais elevados dentro das propriedades.
Próximo desafio é agregar valor
Apesar do avanço, o Brasil ainda tem uma grande oportunidade para ampliar os resultados do agronegócio.
O setor responde por quase metade das exportações brasileiras e sustenta parte significativa do superávit comercial. Porém, soja e carnes concentram cerca de 40% das vendas externas do segmento.
A dependência também aparece nos destinos. A China é, de longe, o principal comprador brasileiro e já busca reduzir sua dependência das importações de soja dentro de uma estratégia de segurança alimentar.
Outro desafio está na industrialização dos produtos. Nos Estados Unidos, alimentos processados, bebidas, frutas e vegetais representam 38% das exportações agrícolas. No Brasil, essa participação é de apenas 7%.
Assim, depois de aumentar a produtividade e conquistar espaço no comércio internacional, o exportador agrícola brasileiro enfrenta uma nova etapa: diversificar mercados, ampliar a indústria de alimentos e aumentar o valor dos produtos vendidos ao exterior.
O campo brasileiro já demonstrou capacidade de produzir mais. O próximo passo é fazer com que cada safra também gere mais valor.

Panorama de Competitividade: Modelo Brasileiro vs. Norte-Americano
A disputa pela hegemonia no comércio global de alimentos reflete estruturas produtivas e territoriais distintas:
| Vetor Analisado | Estados Unidos | Brasil |
| Aproveitamento do Solo | Predomínio de monocultura com ciclo único anual devido ao inverno rigoroso | Cultivo sequencial de duas a três safras por ano na mesma área agrícola |
| Vetor de Crescimento | Expansão territorial estagnada; foco em ganhos marginais de produtividade | Capacidade de converter mais de 30 milhões de hectares de pastos degradados |
| Exigência de Preservação | Exigência reduzida de reserva ambiental obrigatória em imóveis privados | Exigência legal de preservação de 20% a 80% da área da propriedade rural |
| Infraestrutura e Logística | Malha hidroferroviária consolidada e ampla capacidade de armazenamento | Dependência acentuada do modal rodoviário e déficit na capacidade de estocagem |






