Brasil registra um paciente com sintomas de envenenamento a cada duas horas, RS é o segundo colocado

Rio Grande do Sul registra 3.278 internações por envenenamento em dez anos; estado é o segundo mais afetado da Região Sul, com aumento nos últimos anos

Nos últimos dez anos, o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou 45.511 atendimentos em prontos-socorros relacionados a envenenamentos que evoluíram para internação, em alguns casos com evolução para óbito. O alerta é da Associação Brasileira de Medicina de Emergência (ABRAMEDE), que divulga nesta segunda-feira (8) um levantamento inédito. O trabalho revela que, deste total, além dos envenenamentos acidentais e indeterminados, 3.461 pacientes internados sofreram intoxicação proposital, causada por terceiros.

Com base na série histórica é possível estimar uma média de 4.551 casos de envenenamento ao ano, entre 2009 e 2024. O índice fica em torno de 379 registros ao mês e com 12,6 casos ao dia. Isso significa que a cada duas horas, uma pessoa deu entrada numa emergência em consequência de ingestão de substâncias tóxicas ou que causaram reações graves dentro do período analisado.

O levantamento integra uma série de ações em torno dos dez anos de reconhecimento oficial da medicina de emergência como especialidade médica no Brasil. Para a ABRAMEDE, a data – celebrada em setembro – reforça a relevância dos emergencistas, cuja atuação é apontada como decisiva em situações críticas, como envenenamentos, em que cada minuto faz diferença para salvar vidas.

“Esses casos destacam um fenômeno alarmante: muitos episódios de intoxicação são cometidos intencionalmente, muitas vezes com motivações emocionais ou familiares, e não apenas acidentais. A facilidade de acesso a venenos, a falta de fiscalização e de regulamentação, a impunidade e o uso em contextos íntimos tornam o envenenamento uma arma silenciosa e eficaz”, destacou Camila Lunardi.

SUL PARARECE EM SEGUNDO NA PESQUISA

O Sul aparece em segundo lugar, com 9.630 atendimentos — sendo o Paraná (3.764)) e o Rio Grande do Sul (3.278 mil) os estados mais afetados. Já o Nordeste totalizou 7.080 casos, com destaque para a Bahia (2.274) e o Pernambuco (949). No Centro-Oeste foram 5.161 internações por envenenamento, lideradas pelo Distrito Federal (2.206 casos) e Goiás (1.876l). A Região Norte, embora com menor peso absoluto, somou 3.980 registros no período, liderados pelo Pará (2.047) e Rondônia (936).

Ao analisar os casos das 3.461 internações por intoxicação proposital, causada por terceiros, novamente a maioria dos casos se concentra na Região Sudeste, com 1.513 casos ao longo do período analisado. No entanto, as outras cinco aparecem com totais muito próximos: Sul, com 551 ocorrências, Nordeste, com 492, Centro-Oeste (470) e Norte (435).

VIOLÊNCIA – Ela lembra que diversos casos de envenenamento com repercussão nacional foram noticiados este ano, indicando tanto a violência premeditada quanto a vulnerabilidade em situações cotidianas. Em dezembro de 2024, por exemplo, quatro pessoas da mesma família morreram em Torres (RS) após consumirem um bolo contaminado com arsênio.

Poucos dias depois, já no início de 2025, a ceia de Réveillon em Parnaíba (PI) terminou em tragédia quando uma refeição adulterada com inseticida deixou nove intoxicados, sendo cinco mortos e quatro sobreviventes. No Maranhão, duas crianças perderam a vida após comerem um ovo de Páscoa envenenado, enquanto no Rio Grande do Norte um açaí entregue em domicílio resultou na morte de uma bebê de oito meses e deixou uma mulher em estado grave.

“Muitos desses casos poderiam ser evitados se houvesse um investimento em fiscalização e regulamentação de substâncias, punição pela comercialização de produtos clandestinos e investimento em políticas de suporte socioemocional para populações em vulnerabilidade”, reforçou a emergencista Juliana Sartorelo.

ACIDENTES – Os dados oficiais analisados não oferecem um maior detalhamento dos casos de envenenamento, de forma geral. A partir da análise realizada, segundo a ABRAMEDE, após uma tendência de queda desse tipo de situação, entre 2015 e 2021, a série histórica voltou a crescer e atingiu os maiores picos em 2023, com 5.523 registros, e em 2024, com 5.560.

Para Camila Lunardi, os números reacendem o alerta para a necessidade de ampliar a vigilância, a prevenção e a qualificação dos profissionais para o atendimento imediato desses casos. “Nos últimos dois anos, observamos um crescimento preocupante das intoxicações que evoluíram para internação. Em muitos episódios, a substância responsável não chega a ser identificada. No entanto, os dados mostram o quanto é indispensável a atuação rápida e precisa do médico emergencista, que está na linha de frente de situações críticas”, afirma.

Embora a maioria dos registros se concentre em categorias inespecíficas, como drogas e substâncias químicas não determinadas, o levantamento também mapeou as principais causas identificadas nos episódios acidentais. Nesse recorte, os envenenamentos por exposição a analgésicos e medicamentos para aliviar dor, febre e inflamação lideram a lista, com 2.225 casos.

Na sequência, aparecem os episódios envolvendo pesticidas (1.830), álcool por causas não determinadas (1.954) e anticonvulsivantes, sedativos e hipnóticos (1.941). Os envenenamentos relacionados a drogas, medicamentos e substâncias biológicas não especificadas (6.407 casos), a produtos químicos não especificados (6.556) e a substâncias químicas nocivas não especificadas (5.104) aparecem no topo da lista.

TEMPO – Conforme salienta a coordenadora do Comitê de Toxicologia da ABRAMEDE, Juliana Sartorelo, o atendimento ao paciente envenenado é sempre uma corrida contra o tempo. “A prioridade não é identificar o intoxicante, mas garantir o suporte de vida adequado. Por isso a capacitação da equipe impacta profundamente no atendimento. Garantir via aérea, ventilação e circulação é a base para que o paciente sobreviva. Só depois, com ele estabilizado, buscamos informações que possam direcionar o tratamento específico”, disse.

A distribuição geográfica mostra que os envenenamentos estão presentes em todas as partes do País, mas com maior concentração em regiões mais populosas. A análise regional dos atendimentos mostra que o Sudeste concentra quase metade de todos os casos registrados no país, com mais de 19 mil ocorrências em dez anos. São Paulo responde sozinho por 10.161 registros, seguido de Minas Gerais (6.154l).

Do ponto de vista de distribuição estadual, em números absolutos, estão no topo do ranking São Paulo (754 ocorrências), Minas Gerais (500), Pará (295), Paraná (289), Goiás (248), Bahia (199), Rio de Janeiro (162) e Santa Catarina (153). No outro extremo aparecem Amapá (16), Sergipe (8), Alagoas (4), Acre (3) e Roraima (1).

PERFIL – Os dados trazem também informações gerais sobre o perfil das vítimas de envenenamento (proposital ou acidental). A maioria dos casos envolve homens (23.796 registros).

Com relação à idade dos atingidos, o grande destaque são os adultos jovens de 20 anos a 29 anos, com 7.313 registros, e as crianças de 1 ano a 4 anos, com 7.204 registros. As faixas com menos casos são as dos bebês com menos de um ano e os idosos de 70 anos a 79 anos (com 1.612 registros) e com 80 anos ou mais (968).

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