Especialistas da Abimaq apontam oportunidades e desafos no debate sobre redução da jornada no CIC-BG
Temas centrais para melhorar o ambiente de negócios no Brasil, a reforma tributária e a proposta de redução da jornada de trabalho estiveram no centro dos debates do Centro da Indústria, Comércio e Serviços de Bento Gonçalves (CIC-BG), nesta quarta-feira (15). O evento foi realizado em parceria com o Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Bento Gonçalves (SIMMME), tendo como palestrantes especialistas da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq).
Ao receber o grupo de empresários e lideranças, o presidente do CIC-BG destacou o papel da entidade na promoção de discussões que contribuam para a tomada de decisões nas empresas. “O CIC tem o propósito de trazer informação e dar embasamento para que as decisões tomadas nas empresas façam sentido, sempre voltadas ao desenvolvimento e à segurança dos negócios”, afirmou. À frente do SIMMME, Bruno Dal Fré reforçou o propósito da organização em oferecer aos associados as ferramentas necessárias para que possam planejar o futuro com segurança jurídica e previsibilidade econômica. “Momentos como esse, de troca de conhecimento e alinhamento estratégico, permitem que nossas empresas se preparem melhor para as transformações do cenário nacional”, destacou.
acompanhe as notícias pelo canal do whatsapp
Na avaliação do presidente-executivo da Abimaq, José Velloso, a reforma tributária brasileira deve trazer ganhos relevantes de competitividade, simplificação e crescimento econômico ao país nos próximos anos. “Haverá uma grande simplificação, com redução da cumulatividade e mais transparência. O imposto deixa de ser um custo escondido e passa a ser mais claro para todos”, destacou. Entre os pontos centrais, ele ressaltou a criação do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), que devem substituir tributos atuais e permitir maior aproveitamento de créditos ao longo da cadeia produtiva. Com isso, a tendência é reduzir o efeito cascata e melhorar a segurança jurídica, uma vez que o sistema será mais automatizado e com menor margem para interpretações. Apesar de reconhecer que alguns setores, especialmente o de serviços, podem enfrentar aumento inicial de carga tributária, Velloso afirmou que o novo modelo tende a equilibrar o sistema. “Hoje, muitos serviços geram custo porque não permitem crédito. Com a reforma, isso muda. A lógica passa a ser outra e exige uma mudança de mentalidade”, explicou.
A implementação ocorrerá de forma gradual, com início dos testes em 2026 e transição completa até 2033. Segundo ele, a carga tributária total deve se manter limitada a cerca de 25%, com tendência de redução ao longo do tempo devido ao combate à sonegação. “O novo sistema desestimula a informalidade, porque quem compra de quem não paga imposto perde o direito ao crédito”, afirmou. Com o novo modelo, os tributos ficam mais visíveis e melhor distribuídos, reduzindo distorções e aumentando a competitividade da indústria nacional frente a produtos importados.
Um dos principais pontos é que a carga tributária está concentrada no consumo, o que penaliza mais as pessoas de menor renda. Por isso, a reforma tende a beneficiar principalmente os mais pobres, ao tornar o sistema mais equilibrado. Estudos apresentados durante a palestra indicam que a reforma pode elevar o Produto Interno Bruto (PIB) em 20% dentro de 15 anos. Também são projetados avanços no consumo das famílias, nos investimentos e nas exportações. No setor de máquinas e equipamentos, a expectativa é de redução de até 8% nos custos de produção e aumento de cerca de 20% no faturamento, impulsionado por maior eficiência e competitividade.
Entretanto, Velloso alertou para um cenário macroeconômico desafiador. Ele destacou que o chamado “custo Brasil” chega a cerca de R$ 1,7 trilhão e que o país convive com crescimento baixo há décadas. Além disso, a taxa de investimentos segue aquém do necessário. “O Brasil investe cerca de 16,8% do PIB, quando o ideal seria pelo menos 25% para sustentar um crescimento consistente”, afirmou. O dirigente também chamou atenção para o impacto do cenário internacional, especialmente conflitos geopolíticos, que pressionam preços de commodities, elevam a inflação e dificultam a redução das taxas de juros no mundo. Para 2026, a expectativa é de crescimento econômico modesto, em torno de 1,8%, com inflação próxima de 4,7%. O avanço, segundo Velloso, ainda será limitado pelo baixo dinamismo dos setores produtivos e pela restrição de crédito. Mesmo assim, ele reforçou que a reforma tributária representa uma oportunidade importante para destravar o potencial econômico do país. “É uma mudança estrutural relevante. Se bem implementada, pode melhorar o ambiente de negócios e abrir caminho para um crescimento mais consistente no futuro”, concluiu.
Redução da jornada pode elevar custos e pressionar economia
Também no evento, a gerente executiva e DPO da Abimaq, Camilla Toledo, disse que a proposta de redução da jornada de trabalho no Brasil, em debate no Congresso, pode trazer impactos significativos para a economia e o setor produtivo. Segundo ela, há hoje uma série de Propostas de Emenda à Constituição (PECs) e projetos de lei em tramitação que convergem para a diminuição da jornada semanal sem redução de salários. Entre as iniciativas, estão propostas que preveem jornadas de 40 horas, 36 horas e até modelos como o de quatro dias de trabalho por semana. Estudos apresentados indicam que a redução da jornada pode gerar aumento expressivo de custos para empresas e setor público. Em cenários analisados, a mudança para 40 horas semanais pode elevar os custos da indústria em mais de 11%, enquanto a redução para 36 horas teria impacto ainda maior.
Além disso, projeções apontam possível retração do Produto Interno Bruto (PIB), com estimativas que variam de 6% a 15%, dependendo do modelo adotado. Também há previsão de aumento generalizado de preços, na ordem de cerca de 6%, refletindo o encarecimento da produção. “O custo do trabalho aumenta e isso inevitavelmente chega ao consumidor”, explicou.
Um dos principais pontos levantados pela especialista é o baixo nível de produtividade no Brasil. “Nossa produtividade é cerca de um terço da americana. Reduzir jornada sem resolver esse problema estrutural é inverter a lógica”, afirmou. Camilla ressaltou ainda que a jornada legal de 44 horas semanais nem sempre reflete a prática. Dados da própria Abimaq mostram que, considerando fatores como afastamentos e acordos coletivos, a média efetiva já é menor, ficando em cerca de 41 a 42 horas em diversos setores. Além disso, ela destacou a confusão entre jornada e escala de trabalho. “Muitos debates misturam conceitos. É possível, por exemplo, manter a carga horária e reorganizar escalas, como o modelo 5 por 2. Isso já acontece em vários setores”, explicou.
