Escalada do conflito pressiona petróleo no curto prazo, aumenta percepção de risco na América Latina e impõe dilema diplomático ao governo Lula.
Os ataques realizados pelos Estados Unidos contra alvos na Venezuela na manhã deste sábado (3) reacenderam a tensão geopolítica na América do Sul e aumentaram o grau de incerteza nos mercados internacionais. Analistas apontam que o episódio pode trazer reflexos diretos para o Brasil, especialmente por meio do preço do petróleo, da percepção de risco regional e do posicionamento diplomático do governo federal.
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No curto prazo, o principal efeito esperado é uma pressão de alta sobre as cotações internacionais do petróleo. Apesar das sanções impostas à Venezuela nos últimos anos, investigações jornalísticas recentes indicam que o país seguia exportando petróleo de forma indireta, por meio de uma rede paralela de navios que abasteciam outros mercados a preços mais baixos. Com o agravamento do conflito, essa oferta pode ser reduzida, o que tende a pressionar os preços do barril.
Além do impacto sobre as commodities, a escalada militar também pode afetar a percepção de risco em toda a América Latina. Investidores globais, segundo especialistas, costumam reagir de forma generalizada a episódios de instabilidade regional, sem diferenciar claramente os fundamentos econômicos de cada país. Nesse contexto, indicadores como os CDS — que medem o risco de calote da dívida soberana — podem subir não apenas para a Venezuela, mas também para economias como a brasileira, ao menos no curto prazo.
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Apesar da reação inicial negativa, o cenário pode se inverter no médio prazo. Uma das promessas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, é a normalização das operações de empresas petrolíferas americanas na Venezuela, com a retirada de restrições. Caso isso se concretize, a reinserção plena do país no mercado global — considerando que a Venezuela detém as maiores reservas de petróleo do mundo — ampliaria significativamente a oferta, o que poderia exercer pressão baixista sobre os preços do petróleo ao longo de 2026.
No campo político, o episódio também coloca o governo brasileiro diante de um dilema diplomático. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva mantém uma relação histórica de proximidade com o governo venezuelano, o que dificulta uma condenação direta das ações em curso. Por outro lado, uma postura alinhada a Caracas pode gerar atritos com os Estados Unidos, especialmente em um momento de reaproximação comercial entre os dois países, após a recente redução de tarifas americanas sobre produtos brasileiros.
Uma eventual reação de Washington, como a retomada dessas tarifas, poderia representar custos econômicos e políticos relevantes para o Brasil. Diante disso, analistas avaliam que uma posição de neutralidade, com ênfase na defesa da não escalada da violência e do respeito ao direito internacional, seria a alternativa mais prudente.
Em sua primeira manifestação sobre o episódio, Lula afirmou que os bombardeios em território venezuelano e a captura do presidente do país “ultrapassam uma linha inaceitável”. Segundo o chefe do Executivo brasileiro, os atos representam “uma afronta gravíssima à soberania da Venezuela e mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional”.





