Pedidos de prorrogação da votação, decisões judiciais e acusações contra gestores municipais noticiadas pela imprensa em todo o Brasil ampliam a crise em grandes centros como São Paulo, Bahia e outros estados; coordenação nacional das falhas ainda não foi comprovada
As denúncias sobre ônibus fora de circulação durante o segundo turno das eleições, neste domingo (25), provocaram uma série de ações judiciais, pedidos de prisão de autoridades e solicitações para estender a votação por mais duas horas. O caso ganhou dimensão nacional depois que relatos de dificuldades no transporte apareceram em diferentes municípios, enquanto fiscalizações e decisões da Justiça Eleitoral passaram a exigir a recomposição das frotas.
O episódio levanta uma questão central: se a oferta de transporte foi reduzida em diferentes cidades no mesmo dia, houve falhas operacionais locais ou uma ação coordenada capaz de dificultar o acesso dos eleitores às urnas? Até o momento, a repetição das denúncias não comprova, por si só, a existência de um plano nacional articulado. A apuração depende de dados das empresas, registros das garagens, decisões judiciais e informações sobre a circulação efetiva dos veículos.
Em São Paulo, a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) alegou que apenas cerca de 60% da frota prevista estava em circulação, apesar de uma ordem judicial para disponibilizar 100% dos ônibus programados para dias úteis. O partido acionou a Justiça Eleitoral e pediu providências contra responsáveis pelo transporte municipal.
A deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL) também pediu a prisão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), do secretário municipal de Mobilidade Urbana e Transporte, Celso Jorge Caldeira, e do presidente da SPTrans, sob alegação de descumprimento da decisão judicial. A prefeitura nega que tenha ocorrido falta de ônibus e afirma que a demanda estava sendo atendida.
A SPTrans, por sua vez, alegou dificuldades operacionais para cumprir a determinação em razão do curto intervalo entre a notificação judicial e o início da operação. A empresa afirmou que comunicou a ordem às concessionárias, mas precisou reorganizar veículos, equipes e escalas de trabalho.
Salvador tem 544 ônibus parados em garagens
Na Bahia, a situação ganhou um elemento concreto com a fiscalização do Procon estadual. O órgão informou ter encontrado 544 ônibus parados em cinco garagens de empresas de transporte de Salvador. Entre os veículos fiscalizados, havia coletivos considerados aptos a operar, mas que permaneciam nos pátios. O Procon anunciou a adoção de medidas administrativas.
A apuração ocorreu após denúncias de eleitores sobre possível bloqueio da saída dos veículos. O caso levou o Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA) a determinar o restabelecimento imediato de 100% da frota, com frequência equivalente à dos dias úteis e gratuidade. O tribunal também determinou a prisão em flagrante do secretário municipal de Mobilidade, Pablo Souza, por suposto descumprimento de ordem judicial, além de estabelecer multa de R$ 1 milhão por hora em caso de desobediência.
Pablo Souza estava em Paris, segundo informações divulgadas pela prefeitura, o que impediu o cumprimento imediato da ordem. A administração municipal afirmou que a operação seria normalizada e atribuiu parte do atraso na saída dos ônibus à presença de adesivos de propaganda eleitoral nos veículos.
A Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, pediu que o horário de votação fosse prorrogado até as 19h em Salvador, Feira de Santana e Lauro de Freitas. A justificativa é que a redução da frota, as filas e os longos períodos de espera poderiam impedir eleitores de chegar às seções dentro do horário regular.
Denúncias se espalham e campanhas pedem mais tempo
Além de São Paulo e das cidades baianas, relatos sobre dificuldades de transporte foram mencionados em municípios de Alagoas, Paraíba e Sergipe, assim como em Petrópolis, no Rio de Janeiro, e em outras localidades. Em Sergipe, houve determinação da Justiça Eleitoral para recompor a frota intermunicipal.
Lula pediu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a ampliação do horário de votação diante das denúncias de redução de transporte em diferentes regiões. Já a campanha de Flávio Bolsonaro (PL) também defendeu a prorrogação, mas apresentou razões relacionadas a ocorrências climáticas e bloqueios de vias em municípios de São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Os pedidos, portanto, não têm exatamente a mesma justificativa e não demonstram, por si só, uma atuação conjunta das duas campanhas.
O presidente do TSE, ministro Kássio Nunes Marques, afirmou que aguardaria informações dos tribunais regionais antes de analisar a solicitação relacionada aos problemas de transporte na Bahia. A decisão sobre eventual ampliação do horário depende da avaliação da Justiça Eleitoral.
O que diz a regra eleitoral
A Resolução TSE nº 23.751/2026 prevê transporte coletivo gratuito nos dias de votação. A orientação do tribunal determina que o poder público assegure a oferta do serviço com frequência equivalente à dos dias úteis, informe itinerários e horários e comunique eventuais irregularidades aos órgãos competentes.
O TSE também orientou os tribunais regionais a fiscalizar a oferta e encaminhar ao Ministério Público Eleitoral e à Defensoria Pública relatos de redução ou interrupção incompatível com o serviço previsto. A regra busca impedir que a falta de transporte se transforme em obstáculo ao exercício do voto.
O impacto eleitoral ainda precisa ser medido
A eventual redução de ônibus pode prejudicar principalmente quem depende do transporte coletivo e não dispõe de alternativas para chegar ao local de votação. Isso inclui eleitores de baixa renda, para os quais o custo de um transporte particular pode ser impeditivo. No entanto, não há dados suficientes para afirmar quantas pessoas deixaram de votar em consequência das falhas denunciadas, nem para determinar qual candidatura teria sido favorecida ou prejudicada.
Para esclarecer se houve uma ação coordenada, será necessário confrontar a programação oficial das frotas com os registros de GPS, bilhetagem, escalas de funcionários e horários de saída das garagens, além de apurar o cumprimento das decisões judiciais em cada município. A coincidência de denúncias em várias regiões justifica investigação, mas não substitui a comprovação de vínculo entre os episódios.




