Nenhum estado alcançou os 95% de cobertura infantil recomendados em 2026, enquanto casos importados aumentam o risco de novos surtos de sarampo. A desinformação dificulta a recuperação dos índices necessários para conter a transmissão.
O sarampo voltou a preocupar autoridades sanitárias diante do avanço da doença em países das Américas e da baixa cobertura vacinal no Brasil. Em 2026, nenhum estado brasileiro atingiu a meta de imunizar 95% das crianças com as duas doses da vacina tríplice viral, e a cobertura nacional permanece abaixo de 80%, conforme os dados apresentados no levantamento.
O cenário aumenta a preocupação com a reintrodução do vírus, especialmente diante da circulação internacional de pessoas e da identificação de casos associados à importação da doença. O Brasil recuperou, em novembro de 2024, o reconhecimento internacional de território livre da circulação endêmica do sarampo, mas a manutenção desse status depende da vigilância epidemiológica e de índices adequados de imunização.
O infectologista Pablo Eliack Linhares de Holanda ressalta que a recuperação da cobertura vacinal é fundamental para evitar novos surtos.

“Nos principais pontos de atenção, realmente, a questão vacinal é a que teve uma queda. A gente precisa retomar o nosso programa de vacinação para garantir que todo mundo consiga estar bem protegido contra a infecção e evitar, dessa forma, a disseminação dos surtos aqui no Brasil”, afirma.
Casos crescem em diferentes países
O cenário internacional reforça o alerta. Segundo os números apresentados no levantamento, os países das Américas somam mais de 20 mil infecções. O Peru contabiliza cerca de 3 mil casos, enquanto a Bolívia enfrenta dificuldades para conter a disseminação.
Nos Estados Unidos, os registros ultrapassaram 3,6 mil casos em 2026, acompanhados de cinco mortes. No Brasil, foram contabilizados 39 casos em 2025 e mais de 50 em 2026, muitos associados à importação da doença.
O último caso de transmissão autóctone mencionado no levantamento ocorreu em junho de 2022, no Amapá. Desde então, a vigilância busca impedir que infecções trazidas do exterior desencadeiem cadeias de transmissão no país.
O Ministério da Saúde intensificou ações de vacinação e monitoramento, especialmente em municípios de fronteira, onde o deslocamento entre países exige estratégias permanentes de prevenção.
Nenhum estado alcança a meta de vacinação
Os dados estaduais de 2026 mostram diferenças importantes na cobertura vacinal, mas nenhum percentual alcança os 95% recomendados.
Ceará registra 86,69%, Paraná tem 86,76% e Minas Gerais, 86,05%. Entre os índices mais baixos estão os do Amapá, com 63,59%, Pará, com 67,02%, Maranhão, com 69,66%, e Rio de Janeiro, com 69,74%.
Em 2025, Paraná e Minas Gerais também apresentaram resultados superiores aos de outros estados, com coberturas de 89,92% e 87,62%, respectivamente. Mesmo assim, permaneceram abaixo do patamar considerado necessário para impedir a transmissão sustentada.
Quem deve se vacinar
A vacina tríplice viral protege contra sarampo, caxumba e rubéola. A primeira dose oferece proteção de aproximadamente 94% a 96% contra o sarampo, enquanto o esquema completo pode superar 97% de eficácia.
Conforme o calendário de rotina, a primeira dose deve ser aplicada aos 12 meses de idade e a segunda aos 15 meses. Pessoas com doses pendentes devem consultar a caderneta de vacinação e procurar uma unidade de saúde para verificar quais imunizações são indicadas para sua faixa etária e histórico.
A necessidade de novas doses depende do registro vacinal e das orientações vigentes. Por isso, a recomendação é confirmar a situação com um profissional de saúde, sem presumir que o esquema esteja completo.
Para o infectologista Pablo Eliack Linhares de Holanda, a desinformação também representa um obstáculo à ampliação da cobertura.
“Acredito que tenha muita questão política, mas a gente precisa deixar isso de lado, independentemente do lado político, e confiar na ciência e nas vacinas. O programa de imunização brasileiro sempre foi um orgulho mundial, um orgulho nacional, e a gente tem que voltar a isso e acabar com a desinformação”, afirma.
O médico acrescenta que, embora vacinas possam apresentar riscos, a possibilidade de complicações decorrentes da doença precisa ser considerada.
Febre alta e manchas vermelhas são sinais de alerta
O sarampo costuma começar com febre alta, tosse, coriza e conjuntivite. Entre três e cinco dias após o início dos sintomas, podem surgir manchas vermelhas na pele, inicialmente no rosto e depois espalhadas pelo corpo.
Outro sinal sugestivo são as manchas de Koplik, pequenas lesões esbranquiçadas que aparecem na mucosa da boca.
Diante de sintomas suspeitos, é importante procurar orientação de um serviço de saúde e informar sobre a possibilidade de exposição à doença, evitando contato com outras pessoas enquanto houver suspeita de infecção. Profissionais de saúde devem investigar os casos suspeitos e seguir os protocolos de vigilância para reduzir o risco de transmissão.






