Por que tantas mães sofrem com a saúde mental depois do parto?

Por que tantas mães sofrem com a saúde mental depois do parto?

Só agora a ciência olha com atenção para os efeitos da gravidez no cérebro. Entenda como essas mudanças e o despreparo da sociedade impactam a maternidade.

A maternidade provoca uma transformação muito maior do que as mudanças visíveis no corpo durante a gravidez. A ciência vem mostrando que gestar, dar à luz e cuidar de um bebê também alteram o cérebro, os hormônios, o comportamento e a própria identidade da mulher.

https://chat.whatsapp.com/CFY99kMyKUWFUx0SP47Ain

Esse conjunto de transformações é chamado de matrescência, termo criado na década de 1970 para descrever as mudanças físicas, psicológicas e sociais que acontecem durante a gravidez e o início da maternidade. A comparação com a adolescência existe porque, assim como nessa fase da vida, as mudanças podem ser profundas e durar anos.

Apesar da dimensão dessas transformações, a ciência demorou a estudar seus efeitos sobre a mente. Pesquisas mais recentes passaram a mostrar que a gravidez provoca alterações importantes no cérebro, algumas delas permanentes.

Um exemplo é o chamado “cérebro de grávida”, conhecido como baby brain. A sensação de esquecimento e confusão mental pode estar relacionada à redução de volume da massa cinzenta durante a gestação. Segundo pesquisas citadas no material, essa mudança não significa simplesmente uma perda de capacidade. Ela seria uma espécie de reorganização das conexões neurais, tornando a mãe mais atenta e responsiva às necessidades do bebê.

Um estudo de 2022 também encontrou evidências de que algumas capacidades cognitivas podem melhorar durante a gestação. Mulheres grávidas apresentaram maior retenção de determinadas associações relacionadas à memória espacial quando comparadas a mulheres que nunca haviam engravidado.

O impacto não termina no parto

As mudanças provocadas pela gestação e pelo parto não desaparecem imediatamente depois que o bebê nasce. Estudos citados na reportagem apontam alterações cerebrais que podem ser irreversíveis e consequências físicas que permanecem por décadas.

O sono também passa a ser um dos grandes desafios. As noites fragmentadas e a privação de sono afetam o funcionamento cognitivo, a recuperação física e o bem-estar.

Tudo isso pode pesar sobre a saúde mental. Segundo os dados apresentados no material, uma em cada cinco mulheres enfrenta problemas relacionados à saúde mental durante a gestação ou no primeiro ano depois do parto. No Brasil, a estimativa citada é de uma em cada quatro mulheres.

Para aquelas que já tinham histórico de transtornos mentais, as chances de enfrentar problemas aumentam cinco vezes ao se tornarem mães.

A imagem da mãe perfeita

Outro fator apontado é a idealização da maternidade. A expectativa de que exista um suposto “instinto materno” pode fazer com que dificuldades naturais sejam interpretadas como fracasso pessoal.

A pesquisadora Valeska Zanello, da Universidade de Brasília, afirma que a ideia de instinto materno é uma construção social e que a distância entre a maternidade idealizada e a experiência real pode aumentar o sofrimento psicológico.

A mulher passa a lidar simultaneamente com um novo corpo, mudanças no cérebro, uma nova identidade e uma quantidade maior de responsabilidades. A pressão econômica, a culpa e a cobrança sobre a maneira como deve cuidar do filho podem aumentar ainda mais a sobrecarga.

Amamentação também pode gerar sofrimento

A amamentação é outro ponto de pressão. Embora seja frequentemente apresentada como algo natural, ela pode envolver dor, dificuldades físicas e frustração.

Uma análise de 12 estudos publicada em 2024, com quase 2 mil mulheres, apontou que 65% relataram ter enfrentado problemas como leite empedrado. Metade afirmou ter sentido dores nos seios e uma em cada quatro teve dores ou lesões nos mamilos.

Quando a mulher não consegue amamentar da maneira que havia planejado, pode surgir um sentimento de culpa e a sensação de que é uma “mãe ruim”. Uma revisão citada na reportagem encontrou maior frequência desse sentimento entre mulheres que não conseguiam seguir o plano de amamentação desejado.

O próprio ato de amamentar pode provocar uma reação física pouco conhecida. O chamado Reflexo Disfórico de Ejeção de Leite (DMER) pode causar, durante alguns minutos, sentimentos de tristeza, irritação ou angústia relacionados à queda de dopamina durante a saída do leite. Segundo o material, não se trata de um transtorno de humor nem de aversão à amamentação.

A mulher muitas vezes desaparece atrás da mãe

O problema não está apenas nas mudanças biológicas. A maneira como a sociedade trata a maternidade também pode contribuir para o sofrimento.

Durante muito tempo, a atenção ficou concentrada no bebê, enquanto a saúde mental da mulher recebeu menos espaço. O material destaca que até a Caderneta da Gestante de 2026 passou a abordar de maneira mais explícita a saúde mental da pessoa que gesta.

A Organização Mundial da Saúde publicou apenas em 2022 seu primeiro guia específico sobre saúde mental perinatal.

Para a pesquisadora Valeska Zanello, ainda existe falta de preparo para ouvir as mulheres e acolher o sofrimento sem julgamento. Dar nome ao que a mãe está sentindo e permitir que ela seja ouvida são apontados como partes importantes desse cuidado.

A sobrecarga vai além dos primeiros meses

Mesmo quando gravidez, parto e amamentação transcorrem sem grandes complicações, permanecem os desafios relacionados ao trabalho e aos cuidados com a criança.

A reportagem questiona como manter o aleitamento exclusivo até os seis meses, recomendação da Organização Mundial da Saúde, quando a licença-maternidade no Brasil é de quatro meses e muitas famílias enfrentam dificuldades para conseguir vagas em creches públicas.

A divisão das tarefas também pesa. Dados citados no material mostram que as mulheres brasileiras dedicam, em média, 9,6 horas semanais a mais do que os homens às tarefas domésticas e aos cuidados. Ao longo de um ano, essa diferença chega a cerca de 500 horas.

Maternidade não deveria ser responsabilidade de uma pessoa só

A ideia de que toda a responsabilidade pelo cuidado deve ficar sobre a mãe é apontada como um dos fatores que aumentam a pressão sobre as mulheres.

Famílias menores, distância dos parentes, urbanização e falta de espaços públicos seguros também reduziram a rede de apoio disponível para muitas mães. O resultado pode ser mais solidão justamente em uma fase da vida que exige ajuda constante.

A conclusão dos estudos e especialistas citados é que compreender a matrescência não significa apenas conhecer as alterações que acontecem no cérebro durante a gravidez. Também é necessário reconhecer o impacto do sono, da amamentação, da divisão do trabalho, das condições econômicas e da falta de apoio.

A maternidade transforma a mulher física e emocionalmente. Reconhecer essas mudanças e oferecer cuidado também à mãe pode ser fundamental para reduzir o sofrimento e melhorar a experiência de toda a família.

Compartilhar

AD – 1440 x 405 – aurora
AD – 1440 x 405 – afeto organic beauty
AD – 1440 x 405 – Instituto Bordin
AD 400 x 437 – aurora
AD 400 x 437 – afeto organic beauty
AD 400 x 437 – Instituto Bordin