Uma contradição percorre lares brasileiros onde vivem crianças de até 6 anos. A maioria dos pais rejeita a violência como método educativo. No entanto, muitos recorrem a ela no dia a dia. É o que mostra uma nova pesquisa da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal em parceria com o Datafolha. O estudo reuniu pais de crianças na fase da primeira infância. Seu resultado expõe um abismo entre o que se acredita e o que se faz: 80% dos entrevistados afirmam que a palmada é inaceitável. Mesmo assim, 29% admitem aplicá-la. Um sinal de que a intenção nem sempre alcança a prática.
Entre o ideal e o desespero
A educação mudou nas últimas décadas. O modelo autoritário cedeu espaço a outro mais aberto. Hoje, valorize-se o diálogo. A criança tem voz. Mas essa guinada trouxe um novo desafio: como estabelecer limites sem recorrer à imposição? Muitos pais se sentem perdidos. Principalmente nos primeiros anos de vida da criança, quando birras, choros e negações são constantes. É nesse momento de tentativa e erro que as estratégias ineficazes ganham espaço. Gritos, castigos e recompensas imediatas se tornam rotina. Mesmo quando os pais sabem que não funcionam
O peso da exaustão
A rotina acelerada da vida moderna pesa sobre as famílias. As mulheres estão mais presentes no mercado de trabalho. A divisão de tarefas domésticas avançou. Mesmo assim, muitos pais enfrentam uma jornada dupla. Chegamos em casa exaustos. Sem energia para conversar com calma. Nesse cenário, as reações impulsivas tornam-se comuns. Uma pesquisa mostra que 44% dos pais gritam para repreender. 68% colocam os filhos de castigo. E 47% recorrem a recompensas: “Você para de chorar e eu te dou um sorvete”. São táticas que colocam a conversa em segundo plano. E que os próprios adultos critiquem.
“A incoerência entre o que os pais acreditam e o que fazem assim como um pedido de socorro”, diz Mariana Luz, diretora da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal e coordenadora da pesquisa. Para ela, esse conflito não é falta de caráter. É falta de apoio. De informação. De tempo.
O medo do ‘não’
O outro lado do problema é o medo de frustrar a criança. Muitos pais evitam dizer “não” por terem crescido sob regras rígidas. Não quero repetir o que viveram. Mas, ao tentar proteger os filhos da frustração, acaba caindo na permissividade excessiva. As fronteiras entre o permitido e o proibido tornam-se fluidas. E a criança, sem referências firmes, assuma o controle. Posição para qual não está qualificado.
“Se o filho é o tempo todo atendido em suas demandas, passa a ter critérios infinitos e fica confuso”, afirma Adela Stoppel de Gueller, coordenadora do curso de psicanálise da criança no Instituto Sedes Sapientiae. Sem limites claros, a insegurança cresce. E o adulto perde a autoridade necessária para guiar.
Ciência é clara: violência não educa
Práticas como palmadas, beliscões e gritos são contraindicadas pela ciência. Estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS) analisou dados de 49 países. Conclusão: a aplicação regular de sanções físicas reduz em 24% as chances de um desenvolvimento pleno e saudável. “As evidências são de que essa natureza de castigo não oferece nenhum benefício às crianças nem aos pais”, diz Etienne Krug, diretor da área de violência da OMS.
A neurociência reforça esse alerta. Os primeiros anos de vida são decisivos. O cérebro se desenvolve em ritmo acelerado. Forma cerca de um milhão de sinapses por segundo. Esse processo é altamente sensível ao ambiente. Experiências negativas permitem marcas profundas. Limites são necessários. Mas devem ser firmes, claros e livres de violência.
Telas como babá eletrônica
Diante da exaustão, muitos pais recorrem às telas. Tirar o celular ou desligar a TV tornou-se uma ameaça frequente. Uma pesquisa mostra que 44% dos pais usam esse recurso. Em muitos lares, celulares e televisão funcionam como babás improvisadas. Especialistas alertam: isso não resolve. Apenas adia o conflito. E pode estimular a dependência digital em idades precoces.
O caminho: limites com empatia
Não há uma fórmula única para educar. Mas há consenso: o caminho mais saudável passa por estabelecer limites com firmeza e empatia. Sem violência. “Eles aprendem brincando, interagindo e descobrindo o que sente”, explica Mauro Muszkat, neuropediatra da Universidade Federal de São Paulo. O diálogo, ainda que difícil em momentos de tensão, é uma ferramenta mais poderosa.
A jornada é sinuosa. Exige paciência. E permissão para errar. Como disse Albert Einstein: “Educação é o que resta depois que você esqueceu tudo o que aprendeu na escola”. Mais do que métodos, preciso de pais de apoio. De tempo. De espaço para recalcular a rota.





