Crise global da água já atinge o RS, aponta relatório da ONU

O RS tem três regiões hidrográficas com 25 bacias que já apresentam desequilíbrio entre uso da água, ocupação do solo e capacidade natural de reposição.

Estudo divulgado em 30 de janeiro de 2026 alerta que sistemas hídricos estão operando acima da capacidade de reposição natural

Bento Gonçalves / Porto Alegre – 30 de janeiro de 2026. Um relatório divulgado por cientistas ligados à Organização das Nações Unidas (ONU) alerta que o mundo vive a chamada “falência global da água”, um cenário em que a retirada do recurso supera de forma contínua sua capacidade natural de reposição. No Rio Grande do Sul, os efeitos já são observados em estiagens recorrentes, cheias extremas e pressão crescente sobre rios, aquíferos e sistemas de abastecimento.

Os dados constam no relatório Global Water Bankruptcy, elaborado pelo Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH). Segundo o documento, a falência hídrica ocorre quando o uso da água ultrapassa os limites ecológicos e compromete a recuperação dos sistemas naturais ao longo do tempo.

Especialistas apontam que o problema não está apenas na quantidade de chuva, mas no desequilíbrio entre demanda, qualidade da água, infraestrutura e gestão dos recursos hídricos.

Principais causas e caminhos apontados pelo relatório da ONU

Principais causas da falência da águaPrincipais caminhos apontados pelo relatório
Uso da água acima dos limites naturaisReconhecer a falência hídrica como risco sistêmico
Produção agrícola intensivaAceitar limites físicos e ecológicos da água
Poluição e degradação ambientalProteger o capital natural
Perda de geleiras e mudanças no ciclo hidrológicoAdaptar economias e sistemas produtivos
Secas induzidas pela ação humanaTransformar setores intensivos em consumo de água
Má gestão dos recursos hídricosIntegrar justiça social às políticas hídricas

Modelo econômico amplia pressão sobre a água

Pesquisadores brasileiros apontam que o modelo de desenvolvimento baseado em commodities agrícolas intensifica o consumo de água e a degradação do solo. A expansão de monoculturas, o uso de sementes transgênicas e o aumento do uso de agrotóxicos são fatores que elevam o risco de contaminação dos recursos hídricos.

Segundo especialistas, mais de 90% da soja e do milho cultivados no país utilizam sementes geneticamente modificadas, o que está associado ao uso intensivo de insumos químicos e à pressão sobre bacias hidrográficas.

Eventos extremos no Rio Grande do Sul

O Rio Grande do Sul tem enfrentado sucessivas estiagens e cheias na última década. Entre 2020 e 2022, dezenas de municípios decretaram situação de emergência por falta de água. Em 2023 e 2024, enchentes históricas se alternaram com períodos de escassez, enquanto em 2025 diversas cidades registraram dificuldades no abastecimento.

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Dados do Atlas Digital de Desastres no Brasil mostram que, entre 1991 e 2024, o país registrou 32.453 eventos de estiagens e secas. O Rio Grande do Sul respondeu por 11,98% dessas ocorrências, ocupando a segunda posição no ranking nacional.

Ocorrências de estiagens e secas no Brasil (1991–2024)

IndicadorDados
Total de ocorrências no Brasil32.453
Participação do Rio Grande do Sul11,98%
Posição no ranking nacional2º lugar

Segundo a ONU, a redução do intervalo entre eventos extremos é um dos principais sinais de falência da água, pois os sistemas naturais não conseguem se recuperar entre secas e enchentes.

Anos das ocorrências de estiagens e secas no RS (1991-2024)

Bacias hidrográficas sob pressão

O Rio Grande do Sul possui três grandes regiões hidrográficas — Uruguai, Guaíba e Litoral — que concentram 25 bacias responsáveis pelo abastecimento humano e pela irrigação. Especialistas alertam que parte dessas bacias já apresenta desequilíbrio entre uso da água, ocupação do solo e capacidade natural de reposição.

As bacias dos rios Sinos e Gravataí estão entre as mais críticas devido à poluição e ao baixo índice de tratamento de esgoto. Trechos do rio Caí também apresentam pressão ambiental, enquanto as bacias do Taquari e do Guaíba sofrem com cheias recorrentes agravadas pela ocupação de áreas de inundação.

Especialistas defendem que enfrentar a crise da água exige investimentos em saneamento, planejamento do uso do solo, adaptação da agricultura e fortalecimento da gestão integrada dos recursos hídricos.

Veja mais dados sobre o relatório da ONU

Sinais do colapso hídrico global

  • Principais aquíferos do planeta apresentam declínio de longo prazo;
  • Mais de 40% da irrigação mundial depende de reservas subterrâneas em esgotamento;
  • Metade dos grandes lagos perdeu volume desde os anos 1990;
  • Extensas áreas úmidas desapareceram nas últimas décadas;
  • Grandes rios deixam de alcançar o mar em parte do ano.

Custos sociais e econômicos da crise

  • 4 bilhões de pessoas enfrentam escassez severa de água ao menos um mês por ano;
  • 3 bilhões vivem em regiões com queda no armazenamento de água, responsáveis por mais da metade da produção global de alimentos;
  • Perdas econômicas somam trilhões de dólares por ano, entre danos ambientais e custos diretos das secas.

Fonte: Relatório Global Water Bankruptcy – Universidade das Nações Unidas (UNU-INWEH), Atlas Digital de Desastres no Brasil, universidades federais brasileiras.

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