H. pylori é associada a 22% dos casos de câncer colorretal em estudo

H. pylori é associada a 22% dos casos de câncer colorretal em estudo

H. pylori foi associada a cerca de 22% dos casos de câncer colorretal em uma revisão que analisou dados de 48,7 milhões de pessoas.

Uma revisão de 43 estudos, com dados de 48,7 milhões de pessoas, encontrou uma associação entre a infecção pela bactéria Helicobacter pylori, conhecida como H. pylori, e o câncer colorretal.

A Helicobacter pylori (conhecida como H. pylori) é uma bactéria que se instala no estômago e consegue sobreviver ao ambiente altamente ácido do suco gástrico. É uma das infecções bacterianas mais comuns no mundo.

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Segundo os pesquisadores, o modelo desenvolvido a partir dos dados estimou que a infecção pode estar relacionada a 22% dos casos de câncer colorretal no mundo.

O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Diego e publicado na revista eGastroenterology. Os autores, porém, fazem uma ressalva importante: os resultados não comprovam que a bactéria cause o câncer.

A associação encontrada pode abrir caminho para novas pesquisas sobre prevenção, especialmente em regiões onde tanto a infecção pela bactéria quanto o câncer colorretal apresentam alta ocorrência.

Bactéria já é conhecida por afetar o estômago

A H. pylori é conhecida principalmente pela relação com gastrite, úlceras e câncer de estômago.

A novidade está na possível associação com tumores colorretais. Segundo Shailja Shah, pesquisadora da Divisão de Gastroenterologia da Universidade da Califórnia em San Diego e principal autora do estudo, a relação ainda é controversa.

Mesmo assim, uma série de pesquisas vem encontrando associação estatisticamente significativa entre a presença da bactéria e o câncer colorretal.

A revisão apontou diferenças importantes entre as regiões do mundo. O oeste do Pacífico apresentou a maior associação estimada.

Nas Américas, os pesquisadores estimaram que 10,9% dos casos de câncer colorretal podem estar relacionados à exposição à H. pylori.

Como a bactéria poderia influenciar o intestino

Os pesquisadores levantam algumas hipóteses para explicar uma possível relação entre a infecção e o desenvolvimento de tumores colorretais.

Uma delas envolve alterações na microbiota intestinal provocadas pela presença da bactéria. Essas mudanças poderiam favorecer um ambiente associado ao desenvolvimento do câncer.

Outra possibilidade envolve a resposta do sistema imunológico. A infecção poderia manter um processo inflamatório prolongado, contribuindo para alterações celulares ao longo do tempo.

Os pesquisadores também consideram que diferentes fatores podem atuar conjuntamente, incluindo características da própria bactéria, genética, organismo do paciente e condições ambientais.

Entretanto, essas hipóteses ainda precisam de confirmação em seres humanos.

Câncer colorretal avança no mundo

A pesquisa também ganha importância diante do crescimento global dos casos de câncer colorretal.

Em 2022, cerca de 1,93 milhão de pessoas receberam o diagnóstico. A estimativa é de que o número de novos casos chegue a 3,2 milhões em 2040.

Para os autores, a possibilidade de identificar fatores de risco modificáveis poderia ampliar as estratégias de prevenção.

A eventual eliminação da H. pylori seria uma possibilidade, caso futuras pesquisas confirmem uma relação causal entre a bactéria e o câncer colorretal.

Estudos de longo prazo levantam outra pista

Os pesquisadores também analisaram trabalhos que acompanharam pessoas submetidas à eliminação da H. pylori.

Em dois estudos com acompanhamento superior a dez anos, a erradicação da bactéria foi associada a uma redução de 10% no risco de câncer colorretal.

Esse resultado não apareceu nos estudos com acompanhamento inferior a uma década.

Para os autores, a diferença pode indicar que uma eventual influência da bactéria sobre o desenvolvimento do câncer acontece lentamente.

Uma infecção adquirida décadas antes poderia provocar alterações que só se manifestariam muitos anos depois. Por isso, estudos de curto prazo podem não identificar um possível efeito preventivo da eliminação da bactéria.

Pesquisadores ainda não recomendam mudanças clínicas

Apesar dos resultados, os autores não recomendam que a descoberta altere imediatamente os cuidados médicos.

Ainda não há evidências suficientes para indicar a eliminação da H. pylori como estratégia específica de prevenção do câncer colorretal.

Também não existe recomendação para que uma pessoa diagnosticada com a bactéria faça uma colonoscopia antes do período indicado atualmente apenas por causa dessa infecção.

O cirurgião do aparelho digestivo Lucas Nacif, membro do Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva, destaca que o câncer colorretal possui diversos fatores de risco.

Entre eles estão o consumo excessivo de carnes vermelhas, ingestão de álcool, tabagismo, sedentarismo e excesso de peso.

Segundo o especialista, muitos tumores colorretais se desenvolvem a partir de mutações genéticas em lesões inicialmente benignas, conhecidas como pólipos.

Rastreamento continua sendo fundamental

Enquanto a possível relação entre H. pylori e câncer colorretal ainda é investigada, o rastreamento permanece uma das principais ferramentas de prevenção.

A colonoscopia pode identificar pólipos e outras lesões precursoras, além de permitir a detecção de tumores em fases iniciais.

Histórico familiar, idade e outros fatores de risco podem influenciar a indicação e a frequência dos exames.

Para os especialistas, alimentação equilibrada, atividade física e acompanhamento médico continuam fazendo parte das estratégias conhecidas para reduzir riscos.

A nova pesquisa, portanto, acrescenta uma possível peça ao quebra-cabeça. Ela não demonstra que a H. pylori provoque câncer colorretal, mas aponta uma associação que deverá ser investigada em estudos futuros.

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